Acabo de ver notícia no yahoo sobre nova investida do Ministério Público em roteiro de telenovela. Desta vez (ou novamente) acusação de exposição de menor na trama. Uma personagem mirim é uma vilã. Achei pertinente trazer para o blog esta notícia, porque uma vez já escrevi aqui sobre isso. Continuo com a mesma opinião de que, como objeto que vai além do meramente estético, a arte não apenas dá a pensar, mas também costuma instituir, mesmo que por algum tempo, comportamentos estranhos no público, que às vezes confunde a representação e os valores que a arte expõe. Não é de hoje que ator de televisão apanha na rua de pessoas que assistem suas performances na tela e as envilecem juntamente com suas personagens. E olhem que isso não é só "coisa de gente ignorante", como dizem. Até Críticos eminentes batem o pé por implicâncias pessoais, imagine expor uma criança a apanhar na rua! É claro que dizer, como abaixo, que a criança não tem discernimento para entender a separação entre vida e arte é apostar na estupidez de uma criança, na negligência de quem cuida dela nos bastidores e na falta de talento dela para saber representar, mas a discussão é sempre válida. Qual o limite da arte?
"No caso da personagem de "Viver a Vida", as procuradoras Maria Vitória Sussekind Rocha e Danielle Cramer avaliam que "nem todas as manifestações artísticas são passíveis de serem exercidas por crianças e adolescentes". "O trabalho infantil artístico deve ser comedido, observando não só os aspectos legais, mas principalmente eventuais reflexos que determinado personagem pode provocar no desenvolvimento da criança", afirmam na notificação.Para as procuradoras, 'no caso em questão, uma criança de oito anos não tem discernimento e formação biopsicossocial para separar o que é realidade daquilo que é ficção. Isso sem contar com as eventuais manifestações de hostilidade que ela pode vir a sofrer por parte do público e não compreendê-las'."
Ando estudando o Oulipo (Ouvroir de Littérature Potential - Oficina de Literatura Potencial), cujas origens podem ser lidas naWikipediae nositeoficial deles (em francês). Escolhi trabalhar com a "restrição" chamada S+7, do grupo. Foi criada por Jean Lescure e o princípio básico é este: apanha-se um texto qualquer, seleciona-se todos os seus substantivos e, consultando-se um dicionário, substitui-se cada um deles pelo sétimo substantivo na ordem em que aparecem nesse dicionário. O que se obtém, por um lado, é um novo texto, sob a ótica das circunstâncias, dos fatos, das versões e, muitas vezes, das personagens envolvidas. Por outro lado, o desafio da recriação desse texto gera a percepção de núcleos semânticos ao redor do qual o autor deverá produzir, de que todo texto prevê uma técnica, além dos conhecimentos do autor e de sua criatividade. Boa aula de redação, se os professores quisessem aplicar aos alunos. Abaixo, minha experiência pessoal, apartir de uma narrativa de Fedro:
O Lobo e o Cordeiro
Ao mesmo rio vieram compelidos pela sede, o lobo e o cordeiro. O lobo estava mais acima e o cordeiro bem mais abaixo. Então o predador, incitado por sua goela maldosa, encontrou motivo de rixa: “Estou a beber e tu poluis a água!”
O lanoso, tímido, responde:
“Como posso fazer isso de que te queixas, ó lobo? De ti para meus goles é que o líquido corre”.
Repelido pela força da verdade, ele replicou:
“Cerca de seis meses atrás falaste mal de mim”.
O cordeiro retruca: “Eu? Então eu sequer era nascido...”
“Teu pai é que me destratou!
Em seguida dilacera a presa, dando-lhe morte injusta.
Nova versão com o S+7:
A Loção e a Coreografia
Apesar dos mesmos riscos que correm os segmentos comerciais da Loção e da Coreografia, bem mais abaixo de si o primeiro julga estar o segundo, para quem não se agrada de dança, mas gosta de cheirar bem. Então, a predileção da multidão, julga aquele que é por si. Incitado como uma goiva maldosa que desbasta o madeiro, o mercado de Loção encontrou um jeito de atropelar de vez o segmento de Coreografia, como um motorista que tem essa prática perversa como robe. “As pessoas usam nossos produtos como fossem uma jóia, verdadeira água-marinha!”
Como um desses tímidos e lanosos animaizinhos, o segmento da Coreografia responde:
“Como posso fazer isso de que te gabas, ó loção? De tua seiva falsa para meus suaves golpes no vento, tudo difere, pois às almas é que embriago como odor de lis que corre”.
Repelido pela formação da poética resposta, e sem vereda de saída, a Loção replicou:
“Hoje, como desde seis meses atrás, falas ainda mal de mim”...
A Coreografia retruca: “Eu? Então eu sequer era nascido, só ensaiava longe do público...”
“Teu painel é que me destratou, com teus belos meneados e promessas de Paraísos dos sentidos!”
Em seguida dilacera a presença de toda compaixão no diálogo com a Coreografia, lançando-lhe injustos jatos de fragrância no rosto, como moscardos, e a querer perfumar sua flor já perfumada.
Non regrette pas pour le futur douteux Sont outils de douleurs qui tu cultues Les magnifiques êtres des bois non les connaissent pas Autour de toi nous revenons meilleures jours Sous tes ailes dont t'eleves chaque matin Nous repousons nous plus doux espoirs Qui la vie est belle par dedans et dehors Comme toi-même.
L'un et l'autre, le soleil et son clarté Sont deux vaisseaux sans timoniers J'espere, mon âme, j'espere Pour tous cets choses qui nous rendre signals Pour l'étoiles mortes, pour les sacrifices humaines Pour les marques dans la chair Pour te baiser depuis la dernière revoir J'espere à toi comme moi-même.
Parmi cettes choses qui ferment nous yeux Au coeur du temps que se leve avec des grillons et des petits grenouilles réveillées L'aveugle vieux dans un chambre vide Comptant les étoiles du matin que passent dans la route. que passeront.
Li recentemente uma passagem do livro Penser/Classer, do Georges Perec, que acredito dar muito pano para manga para discussões sobre a atividade literária e estética dos escritores. Perec ilustra, neste trecho abaixo, uma necessidade que sempre foi minha também, como escritor: tratar de todos os assuntos possíveis, do direito e do averso, da palavra sim e da palavra não, do politicamente correto à mais aviltante contradição, mas principalmente de todas as formas e de todos os gêneros, numa brincadeira infinita com a palavra e com seus sentidos. Sem absorver rótulos, apenas absorvendo a vida de seus próximos, de sua sociedade, de sua época, de suas formas, de suas representações e de seus sentidos múltiplos. Acho o melhor exercício de generosidade que um artista pode oferecer aos outros, falando das alegrias e vicissitudes, que é próprio da existência humana, e também reproduzindo (e criando) formas para ela.
Naturalmente, a discussão não é tão simples, nem quero torná-la mão única ("minha opinião é a única que vale!!"). Se o leitor é a outra ponta dessa cadeia de criação, não poderia nem teria como cercear sua interpretação de minha obra. Mas como nunca saberei quem me lerá um dia nem o que entenderá de minha obra, essa é uma posteridade que ao mesmo tempo me foge e me torna livre para não me afiliar a partidos. Mas vamos ao Perec:
"Se eu tentar definir o que tentei fazer desde que comecei a escrever, a primeira idéia que me vem na mente é que eu jamais escrevi dois livros iguais. (...) Minha ambição de escritor é percorrer toda a literatura de meu tempo sem jamais ter o sentimento de retornar sobre os mesmos passos ou de remarcar meus próprios traços, e escrever tudo o que for possível a um homem de hoje: livros extensos e livros curtos, romances e poemas, dramas, libretos de ópera, romances policiais, de aventura, de science-fiction, folhetins, livros para crianças..."
É sobre essa inquietação e, ao meso tempo alegria de viver através das palavras que eu estou falando. Sem pressa, sem vontade de seguir a multidão, como um Drummond que escreve de Sentimento do Mundo e A Rosa do Povo, até Poesia Errante, de "derrames líricos e outros nem tanto ou nada", como este:
Entre os dias da semana, olhada à minha maneira, de todos o mais bacana sem dúvida é quarta-feira.
Neste momento, tento escrever fugindo o possível que der do uso do (...). É pouco duvidoso que eu deixe de ter êxito neste texto reduzido, e, creio que muitos possuem o bom sucesso de escrever um em que propõem expor esse recurso no português, que Georges Perec usou. Sumirei, com oportunismo, com esse elemento do léxico, e me pergunto se o leitor, esse sempre ingênuo e crente nos truques do escritor, consegue ver, em certo momento, o que é esse objeto que eu elidi desde o princípio. Tente de novo, querido leitor. Conseguiu? É óbvio que sim. Bom, neste momento podemos ser sérios sem ofender ninguém (excuso-me por ser inconveniente, pois disse que o leitor é “ingênuo”, foi um chiste). Tudo isto porque desejo referir o livro de Georges Perec, que ele escreveu sobre um elemento do léxico que some do texto (estou sendo repetitivo, rsrs), o e. Onde ele viveu, é um exercício linguístico extremo, por seu uso extensivo. Exemplo: “Je ne veut rien dit"; "c’est comme les peuples dizent en son region"; "Sont interdits les chiens" etc.” Como podem ver, o e nesse ponto do mundo é muitíssimo comum. De repente, se eu for intrépido, tento verter em português esse texto do escritor Perec. O título do livro em português? Bem, como me é impossível dizê-lo sem expor o elemento do léxico que prometi sumir, vou oferecer um sinônimo, e que o leitor busque o primeiro no site que lhe convier: “O Sumiço”. Bom, estou perto de receber, por empréstimo, esse texto. De repente, coloco um ou outro trecho no blog. É isso.
PS: desculpem se virem o elemento, tive pouco tempo de redigir o texto.
Os versos abaixo trata-se de um soneto escrito em versos alexandrinos (12 sílabas). Na tradução, optamos apenas por manter as rimas e conservar o estilo ricamente ornamentado do autor, esperando manter a essência mesma da composição.
Dans l'enfer de son corps mon esprit attaché O inferno de seu corpo com minha alma agarrei
Dans l'enfer de son corps mon esprit attaché (Et cet enfer, Madame, a été mon absence) Quatre ans et davantage a fait la pénitence De tous les vieux forfaits dont il fut entaché.
O inferno de seu corpo com minha alma agarrei
(E esse inferno, Senhora, foi minha falência)
Quatro anos e demais foi a penitência
Cada velha falta de que me manchei. Ores, grâces aux dieux, ore' il est relâché De ce pénible enfer, et par votre présence Réduit au premier point de sa divine essence, A déchargé son dos du fardeau de péché :
Agora, pelo bom Deus, sigo relaxado
Deste penoso inferno, e a vossa presença
Reduzida ao primeiro ponto de sua divina essência,
Livrou minhas costas deste imenso fardo:
Ores sous la faveur de vos grâces prisées, Il jouit du repos des beaux Champs-Elysées, Et si n'a volonté d'en sortir jamais hors.
Desde já, de vossas graças agrilhoado,
Lasso o corpo, em celeste cenário, relaxado,
Sem vontade de sair jamais o movo. Donques, de l'eau d'oubli ne l'abreuvez, Madame, De peur qu'en la buvant nouveau désir l'enflamme De retourner encor dans l'enfer de son corps.
No livro A Cortina (Le Rideau), estudos para uma teoria do romance, Milan Kundera emite a seguinte constatação: "Nossa consciência da continuidade é tão forte que interfere na percepção de cada obra de arte". O autor se refere a certos anacronismos históricos presentes nas mentes dos leitores e no público da arte em geral, que segue rejeitando toda e qualquer obra que interfira nos códigos artísticos e culturais já estabalecidos. Ou seja, "à mente apavora o que ainda não é mesmo velho", como canta Caetano Veloso em Sampa. Na maioria das vezes, não importa o quanto a crítica literária ache que esteja devidamente instrumentalizada, seguirá a maior parte dela (de nós, aliás), fazendo cara feia para as obras que não sejam uma continuação de cada tradição, como eternas homenagens aos mestres falecidos e reverenciados ou inserção na Cultura e (mais ainda a do politicamente correto).
Mas ao invés de citar exemplos de livros de ficção, sustento esta postagem na seguinte matéria que o leitor poderá ler aqui no yahoo (clique na palavra). Pelo título, "Peçonha Erótica", já se percebe as caras de poucos amigos da autora da matéria a respeito do filme que será dirigido por Marcos Baldini baseado no livro de Rachel Pacheco, a "Bruna Surfistinha", ex garota de programa que vendeu 250 mil exemplares com O Doce Veneno do Escorpião, relatos de suas atividades como prostituta. Não tenho nada contra a opinião da autora da matéria, Eliane Maciel, é seu tom de deboche, sendo ela uma jornalista, que me deixa incomodado. Debochar é subterfúgio para quem não deseja dizer explicitamente o que pensa desse filme, desse livro e dessa moça, seja o que for. Fica nas entrelinhas, e o leitor que se vire. Mas deixo isso de somenos.
Não é nem um pouco (não deveria ser) novidade obras como essa venderem como água, a exemplo de livros como Eu, Cristiane F., drogada e prostituída (relato de uma menina de 13 anos), Xaviera Hollander, biografia de uma ex cafetina americana, que li no ensino médio, entre tantos outros. Deixar de falar sobre Bruna Surfistinha e tantas outras é tão hipócrita quanto deixar de exibir um filme como Kids. Se o problema é o caminho das drogas, das doenças sexualmente transmissíveis, da violência sexual, entre outros problemas que andam afetando nossos jovens e que o filme da Bruna (que nem passou ainda) corre o risco de mascarar, tornando-a uma heroína e a vida que ela levou uma escolha sábia ou com consequências positivas, de fato a obra vicia, e não debate nem mesmo permite. Passa a ser mão única irresponsável.
Por outro lado, a obra existe, vendeu muito. Abre um caminho não apenas para "cineastas inescrupulosos e ambiciosos" (entrelinhas da Maciel?) venderem sexo, mas também para estudiosos discutirem o que é o gosto popular (no Brasil e no exterior), perguntarem-se por que o sexo vende muito (o que parece revelar uma sociedade mascarada, que faz da repressão sua maneira de existência), e noções ultrapassadas ainda existentes no discurso de muitos e que condicionam a recepção, como moralismo e conveniência.
Último trecho traduzido que transcrevo aqui da obra je me Souviens, do escritor francês Georges Perec. O livro modela e recria a realidade em parte fictícia, desde objetos e situações corriqueiras, até incidentes inverossímeis e as próprias leituras do autor, como forma de desafio a noções contestáveis como "verdade", "autenticidade","belo", entre outras. Pense-se que o caráter documentar do real e de quando a memória que o atesta é tida como falha. Isso implica que se a memória é tudo o que resta ao homem como noção do que é verdadeiro e factual, então, sua falha mostra que o próprio real pode passar por ficção e vice-versa. Assim é esta obra de Georges Perec. Além, é claro, de um divertir-se com a História, fazendo-a "histórias", e tornando estas aquela.
60
Je me souviens « d'un petit pas pour l'homme, mais un grand pas pour l'Humanité ».
60
Eu me lembro “de um pequeno passo para o homem, mas um grande passo para a Humanidade”.
61
Je me souviens de la fierté d'aller au lait à Léry à vélo. J'avais donc grandi, quelle responsabilité. Quel plaisir la première fois.
61
Eu me lembro do orgulho de ir de bicicleta ao leite de Léry. Eu era então grande, quanta responsabilidade. Que prazer a primeira vez.
62
Je me souviens des lunettes « sécurité sociale », rosâtres, ornées d'un filet brun aux sourcils.
62
Eu me lembro dos óculos “seguridade social”, rosados, ornados de um filete castanho nas sobrancelhas.
63
Je me souviens de PERLIN PINPIN.
63
Eu me lembro de PERLIN PINPIN.
64
Je me souviens d'Elvire que j'aimais et qui m'avait offert un cadeau, magnifique emballage de crottes de chèvre.
64
Eu me lembro de Elvira, que eu amava e me deu de presente uma magnífica embalagem de merda de cabra.
65
Je me souviens d'un film d'animation avec un ours, une petite fille et un marchand de sable, mais pas du nom des personnages ni du titre du film.
65
Eu me lembro de um filme de animação com um urso, uma menina e um mercador de terra, mas nem do nome dos personagens nem do título do filme.
66
Je me souviens du temps que les moins de 15 ans ne peuvent pas connaître... La Bohème...
66
Eu me lembro do tempo que os menores de 15 anos não podiam conhecer... A Boemia...
67
Je me souviens du Certificat d'Études, debout face au jury, à pousser le Chant du Départ.
67
Eu me lembro do Diploma, em pé diante do júri, a entoar a Canção de Despedida.
68
Je me souviens des histoires de Toto.
68
Eu me lembro das histórias de Totô.
69
Je me souviens de la télé en noir et blanc.
69
Eu me lembro da televisão em preto e branco.
70
Je me souviens des messes à Vineuil, lâchés de grillons, grenouilles ou lézards.
70
Eu me lembro das missas em Vineuil, covardes de grilos, rãs ou lagartos.
Segue aqui mais uma passagem de Je me Souviens, de George Perec, obra construída por memórias nem sempre confiáveis, no sentido que o aspecto biográfico do autor no livro está associado à criação a partir de certas lacunas em sua vida pessoal, em fatos que ele não viveu, segundo seus biógrafos. Reconstrução de uma vida que poderia ter sido e não foi, como diria Bandeira, e que faz parte do projeto geral do francês.
20
Je me souviens des vaccinations en collectivité.
20
Eu me lembro da vacinação pública.
21
Je me souviens des fleurs de boutons d'or et de leur reflet doré sur le menton pour voir si « tu aimes le beurre ».
21
Eu me lembro de flores com botões de ouro e do seu reflexo dourado sobre o queixo para ver se “tu gostas de manteiga”.
22
Je me souviens de ces défilés du 8 mai, 14 juillet, 11 novembre... de ces fêtes de village.
22
Eu me lembro desses desfiles de 8 de maio, 14 de julho, 11 de novembro... dessas festas na cidade.
23
Je me souviens des essayages de morceaux de pull encore accrochés aux aiguilles à tricoter.
23
Eu me lembro das cestas com pedaços de pulôver ainda presos nas agulhas de tricotar.
24
Je me souviens des «points» de la COOP à coller pour obtenir des lots.
24
Eu me lembro das “colas” na cooperativa para obter prêmios
25
Je me souviens de Nounours, Pimprenelle et Nicolas, du Marchand de Sable et de leur « Bonne nuit les petits ».
25
Eu me lembro de Nounours, Pimprenelle e Nicolas, do mercador de Sable e de seu “Boa noite crianças”.
26
Je me souviens des Compagnons de la Chanson.
26
Eu me lembro dos Companheiros da Canção.
27
Je me souviens du petit carnet où j'écrivais les mots des grands et que je ne comprenais pas.
27
Eu me lembro do pequeno caderno no qual eu escrevia as palavras grandes que não compreendia.
28
Je me souviens de 1516, premier anniversaire de 1515.
28
Eu me lembro de 1516, primeiro aniversário de 1515.
29
Je me souviens de l'annonce de la mort de Brassens.
29
Eu me lembro do anúncio da morte de Brassens.
30
Je me souviens des heures passées avec ma souer à faire tourner un Globe terrestre, les yeux fermés, le doigt pointé dessus, et de ne les rouvrir que lorsque celui-ci s'était arrêté, nous imaginions alors des voyages et des rencontres.
30
Eu me lembro das horas passadas com minha irmã, dando a volta no Globo terrestre, os olhos fechados, o dedo apontado encima, e de não o tirar até o momento dele parar, e nós imaginávamos então viagens e encontros.
Esta foi enviada a mim pela professora Polyanna Camêlo, e pode ser encontrada aqui. Se é legítima tal ementa, não sei, afinal, numa democracia, a única obrigação constitucional é matricular os filhos na escola para receberem educação. "Onde", já são outros quinhentos. Mas fica a curiosidade do projeto e a vontade, por parte de quem estudou em escola pública, como eu, vê-la em melhores dias.
PLS - PROJETO DE LEI DO SENADO, Nº 480 de 2007
Autor:
SENADOR - Cristovam Buarque
Ementa:
Determina a obrigatoriedade de os agentes públicos eleitos matricularem seus filhos e demais dependentes em escolas públicas até 2014.
Data de apresentação:
16/08/2007
Situação atual:
Local:
18/06/2009 - Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania
Situação:
17/04/2009 - AGUARDANDO INSTALAÇÃO DA COMISSÃO
Indexação da matéria:
Indexação: FIXAÇÃO, OBRIGATORIEDADE, AGENTE PÚBLICO, OCUPANTE, CARGO ELETIVO, EXECUTIVO, LEGISLATIVO, REPÚBLICA FEDERATIVA, ESTADOS, (DF), MUNICÍPIOS, MATRÍCULA, FILHOS, DEPENDENTE, ESCOLA PÚBLICA, EDUCAÇÃO BÁSICA, ENSINO FUNDAMENTAL, ENSINO DE PRIMEIRO GRAU, DEFINIÇÃO, PRAZO MÁXIMO, APLICAÇÃO, NORMAS.
A partir de agora, traduzo aqui algumas passagens da obra "Je me Souviens" (Eu me Lembro), do escritor francês Georges Perec, falecido aos 46 anos, em 1982, membro do OuLiPo (Ouvre de Littérature Potenciale - Oficina de Literatura Potencial). Extraordinário na inventividade e no estilo, Perec fez da sua escritura um jogo cheios de regras formais que superou o noveau roman e fez da literatura algo não dominado pelo automatismo da escrita, e sim pelo controle do tema antecedido pelo próprio domínio da forma. Curiosamente, ainda que aplaudido e celebrado na França, Perec tem poucas obras traduzidas no Brasil. Recentemente (2005), a Cosac Naifypublicou aColeção Particular traduzido por Ivo Barroso. Bom, aqui seguem trechos da obra que mencionei acima, curiosamente fruto do aparente automatismo psíquico e da memória do autor, mas a verdade é que Perec era um experimentalista da linguagem, ou seja, dos meus. Continuo na próxima postagem.
1
Je me souviens des dîners à la grande table de la boulangerie. Soupe au lait l'hiver, soupe au vin l'été.
1
Eu me lembro de jantares na grande mesa da padaria. Sopa ao leite no inverno, sopa ao vinho no verão.
2
Je me souviens du cadeau Bonux disputé avec ma soeur dès qu'un nouveau paquet était acheté.
2
Eu me lembro do presente Bonux disputado com minha irmã sempre que uma nova caixa era comprada.
3
Je me souviens des bananes coupées en trois. Nous étions trois.
3
Eu me lembro de bananas cortadas em três. Nós tínhamos três.
4
Je me souviens de notre voiture qui prend feu dans les bois de Lancôme en 76.
4
Eu me lembro de nosso carro que pegou fogo no bosque de Lancôme em 1976.
5
Je me souviens des jeux à l'élastique à l'école.
5
Eu me lembro dos jogos de elástico na escola.
6
Je me souviens de la sirène sonnant, certaines après-midi, à côté de l'école et qui vrombissait jusqu'à envahir l'espace que nous habitions.
6
Eu me lembro da sirene tocando, algumas tardes, na esquina da escola e que vibrava até invadir o espaço que nós habitamos.
7
Je me souviens de Monsieur Mouton, l'ophtalmo, qui avait une moustache blanche.
7
Eu me lembro do Senhor Mouton, o oftalmo, que tinha um bigode branco.
8
Je me souviens des coups de règle en fer sur les doigts.
8
Eu me lembro de golpes de régua de ferro nos dedos.
9
Je me souviens des Malabars achetés chez la confiseuse au coin de la rue.
9
Eu me lembro de Malabares comprados na confeitaria da esquina da rua.
10
Je me souviens de l'odeur enivrante des livres, à la rentrée scolaire.
10
Eu me lembro do odor embriagador de livros, no início das aulas.
Budafideilodanos (cada um tem a Pasárgada que merece), Pernambuco, Brazil
Ociosidade não é vagabundagem nem preguiça, mas uma indisposição serena com a vida, que leva à fina ironia ou a um mau-humor dos diabos com a tolice (alheia e própria), que acaba levando ao riso (de si próprio e dos outros).